Veja Oeste | O Seu Portal de Notícias do Oeste
Veja Oeste | O Seu Portal de Notícias do Oeste

Enem e qualidade do sono


Deu branco na hora da prova? Médica do Sono explica como noites mal dormidas podem atrapalhar candidatos do Enem

Com mais de 5 milhões de inscritos e provas marcadas para novembro, especialista explica por que sacrificar horas de descanso pode comprometer a capacidade de recordar conteúdos e manter a atenção durante o exame

Na reta final para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, uma decisão aparentemente inofensiva pode atrapalhar o desempenho dos estudantes: trocar horas de sono por mais tempo de estudo. Com provas marcadas para os dias 8 e 15 de novembro, o exame reúne 5.051.345 inscritos confirmados em todo o Brasil, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

Diante da pressão por bons resultados, a médica do sono Profª Dra. Cristina Salles alerta que dormir bem não é apenas uma necessidade de descanso, mas parte fundamental do processo de aprendizagem e preparação para a prova.

O risco está justamente em um hábito comum entre candidatos: estudar até tarde ou acordar antes do horário habitual para fazer a última revisão. Segundo a especialista, a redução do tempo de sono pode comprometer processos cerebrais envolvidos na consolidação das informações aprendidas, na memória e na capacidade de tomar decisões.

A preocupação tem respaldo científico. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 na revista Sleep Medicine Reviews, reunindo 44 estudos, identificou que uma única noite de sono restrito já pode aumentar a sonolência e prejudicar a atenção sustentada. Em uma prova extensa como o Enem, que exige leitura, interpretação, raciocínio e concentração por várias horas, esse efeito merece atenção.

Por que acordar mais cedo pode atrapalhar a memória?

A explicação está na arquitetura do sono. Durante a noite, o cérebro passa por diferentes estágios, que desempenham funções complementares na recuperação do organismo e no processamento das informações.

Na primeira parte da noite, costuma haver maior concentração do sono profundo, chamado N3. Na segunda metade, os períodos de sono REM tornam-se mais prolongados. Ambas as fases participam dos processos relacionados à aprendizagem e à memória.

A Profª Dra. Cristina Salles explica que reduzir o tempo de descanso, especialmente ao antecipar o horário de despertar, pode interromper parte desses ciclos.

"Quando você toma essa decisão, diminui o percentual de sono REM e, consequentemente, pode comprometer a memória, a cognição e a capacidade de decisão na hora da prova", alerta a médica.

O sono REM participa de mecanismos importantes para a aprendizagem, mas não atua sozinho. O sono profundo também está envolvido na consolidação de memórias, incluindo conhecimentos e conceitos adquiridos durante os estudos.

Isso significa que passar horas diante dos livros não garante, por si só, que todas as informações estarão prontamente acessíveis no momento do exame. O cérebro também depende de períodos adequados de sono para organizar e consolidar parte do conteúdo aprendido.

O famoso "branco" na prova pode ter relação com noites mal dormidas?

Esquecer uma fórmula, não conseguir desenvolver um raciocínio ou ter dificuldade para lembrar um conteúdo estudado são situações que preocupam muitos candidatos.

Embora o chamado "branco" possa ter diferentes causas, incluindo ansiedade e estresse, a privação de sono pode contribuir para dificuldades de atenção e de recuperação das informações.

A relação preocupa especialmente em avaliações como o Enem, que exigem resistência mental ao longo de várias horas e envolvem habilidades cognitivas distintas, desde a interpretação de textos até a resolução de problemas e a produção de uma redação.

Segundo a Profª Dra. Cristina Salles, o sono profundo também merece atenção quando o assunto é o acesso ao conhecimento adquirido.

"Outro ponto importante é que o sono N3 também está relacionado à memória semântica. E, quando vamos fazer uma prova, principalmente uma redação, precisamos dessa memória", explica.

A memória semântica está relacionada ao armazenamento de conhecimentos gerais, conceitos e significados. Ela contribui, por exemplo, para compreender um tema, relacionar informações e mobilizar repertório na construção de argumentos.

Quantas horas um estudante deve dormir antes do Enem?

A Academia Americana de Medicina do Sono recomenda entre oito e dez horas de sono por dia para adolescentes de 13 a 18 anos. Para adultos, a recomendação geral é de pelo menos sete horas por noite, embora as necessidades individuais possam variar.

Mais do que dormir adequadamente apenas na véspera da prova, o ideal é manter uma rotina regular ao longo do período de preparação.

Isso inclui evitar mudanças bruscas nos horários de dormir e acordar, reduzir o consumo de cafeína no fim do dia e reservar um período de desaceleração antes de ir para a cama.

Na prática, o estudante que pretende aproveitar a madrugada ou antecipar o despertador para revisar assuntos pode acabar chegando à prova mais sonolento e com maior dificuldade para sustentar a atenção.

Na reta final, dormir também faz parte da preparação

Com a proximidade do exame, a orientação é organizar os horários de revisão sem sacrificar o descanso. Na noite anterior, o candidato deve priorizar uma quantidade adequada de sono, respeitando suas necessidades e planejando o horário de despertar com antecedência.

A preparação também envolve reduzir fatores que possam comprometer o descanso, como o uso prolongado de telas à noite, a ingestão tardia de estimulantes e a desorganização dos horários.

A especialista reforça que estudar e dormir não são atividades concorrentes. O sono participa dos processos que permitem aproveitar melhor aquilo que foi aprendido durante o dia.

"Por isso, precisamos dormir bem, garantindo quantidade, qualidade e regularidade do sono, para que consigamos ter um bom desempenho nas provas*", conclui a Profª Dra. Cristina Salles.

Para os milhões de brasileiros que disputarão uma oportunidade de ingresso no ensino superior, a mensagem é simples: na reta final do Enem, proteger as horas de sono também é uma forma de cuidar da preparação.

________________________________________

Fonte especializada

Prof.ª Dra. Cristina Salles

Médica do Sono

Prof. Adjunta Escola Bahiana de Medicina 

Pós Doutora Escola Bahiana de Medicina 

Doutora UFBA/ Mestre EBMSP Otorrinolaringologista 

Coordenadora da Unidade de Medicina do Sono do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES-UFBA/Ebserh) e do Ambulatório de Medicina do Sono da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
Veja Oeste | O Seu Portal de Notícias do Oeste